Pepetela | O Planalto e a Estepe | E-Book | www2.sack.de
E-Book

E-Book, Portuguese, 192 Seiten

Pepetela O Planalto e a Estepe


1. Auflage 2010
ISBN: 978-972-20-4288-8
Verlag: D. QUIXOTE
Format: EPUB
Kopierschutz: Adobe DRM (»Systemvoraussetzungen)

E-Book, Portuguese, 192 Seiten

ISBN: 978-972-20-4288-8
Verlag: D. QUIXOTE
Format: EPUB
Kopierschutz: Adobe DRM (»Systemvoraussetzungen)



Do encontro entre um estudante angolano e uma jovem mongol, nos anos 60, em Moscovo, nasce um amor proibido. Baseada em factos verídicos, ficcionados pelo autor, esta história põe em evidência a vacuidade de discursos ideológicos e palavras de ordem, que se revelam sem relação com a prática. Política internacional, guerra, solidariedade e amor, numa rota que liga um ponto perdido de África a outro da Ásia, passando pela Europa e até por Cuba. Uma viagem no tempo e no espaço, o de uma geração cansada de guerra num mundo cada vez mais pequeno. Maravilhoso e comovente, este é um romance sobre o triunfo do amor, contra todas as vontades e todas as fronteiras.

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OS ROCHEDOS DA TUNDAVALA


Os olhos dele continham o céu do Planalto.
Na Huíla, Serra da Chela, Dezembro, quando o azul mais fere.
Nos olhos dela estavam gravadas suaves ondulações da estepe
mongol. Tons sobre o castanho.
Entremos primeiro no azul.
   A minha vida se resume a uma larga e sinuosa curva para o amor.
   Começando por um caminho longo até Moscovo.
   Não vos contarei todos os detalhes dessa viagem. Houve outras, também importantes, houve mesmo muitas viagens. Mas essa primeira viagem em arco amplo e súbitos desvios demorou mais, começou na Huíla, Sul de Angola, quando fui parido.
   Nasci no meio de rochedos. A casa, porém, era de adobe.
   Casa de adobe com rochedos à volta. Título de quadro?
   Era muito duro fazer uma casa de pedra, como na aldeia de Trás-os-Montes onde o meu pai tinha nascido. A minha mãe era já de algumas gerações huilanas e nascera numa mais pequena que a nossa. Por isso se construiu a de adobe, quando casaram. Os dois, com a ajuda de um serviçal muíla, chamado Kanina, nome de soba grande, ergueram a moradia, usando o barro de uma baixa sempre húmida para fazerem blocos secos ao sol. Primeiro teve capim como cobertura. Depois chapas de zinco. Finalmente telhas.
   Houve progresso.
   Nasci na fase intermédia, das chapas de zinco. Na do capim tinha nascido a Olga, minha irmã mais velha. Depois, já na de telhas, nasceram o Zeca e o Rui, meus mais novos. Só eu tive direito, ao ser atirado para o mundo, a ouvir chuva batendo em chapas de zinco. Foi mesmo a primeira música que aprendi a ouvir. Os rítimos variam, conforme a nuvem de chuva é mais grossa ou menos espessa, ou conforme a força e direcção do vento. Até conforme a temperatura da água. Músicas diferentes de gotas batendo no zinco, quem pode esquecer? Bebé eu era e estendia as mãos para o tecto, talvez para agarrar a música da chuva. Contaram mais tarde os meus pais, sorrindo. No entanto, essas lições da primeira infância não tiveram importância nenhuma para o resto da estória, pois sempre fui péssimo em música, duro de ouvido. Acabei mesmo meio surdo, mas isso foi mais tarde, por causa dos tiros e rebentamentos.
   As guerras não perdoam.
   Construíram a casa sobre terreno cedido pelo meu avô materno. O casal queria moradia independente e ali eram terras virgens, já fora do perímetro urbano. Façam a casa para lá, indicou o meu avô com gesto largo. O avô tinha gestos amplos, se tratando de terra, espaço. Como os muílas, na sua secular sabedoria. E o meu pai aproveitou do gesto, escolheu o melhor sítio e depois foi plantando árvores de fruta e fazendo hortas. Até erguer uma vedação. Eu já era miúdo e ajudei na vedação, imitando a Olga. O avô tinha entretanto morrido e os outros filhos dele não se opuseram. No fundo, o terreno ficou para a minha mãe, como herança não estabelecida, no meio de algumas hortas com cubatas. Aquele terreno nunca fora utilizado para nada, esquecido no caminho da Tundavala, fantástica fenda de mil metros na montanha, fenda sorvedouro de sonhos e presságios. Não se tratava de lendas antigas portadoras de ameaças nem de estórias de feitiços e mortos injustiçados, como há tantas por aí contaminando lugares. Apenas não era local utilizável e os pastores tradicionais preferiam outros e não aquele sítio meio perdido como passagem. Ainda menos para pastagem dos bois.
   Bois tivemos nós, primeiro um par, depois os que foram sendo paridos. Em miúdo, o Kanina ensinou-me a pastorear bois. Acordava com o sol, levava primeiro o gado para o pasto, me lavava rapidamente e corria depois para a escola, a quase uma hora de marcha. Não cansava, distraía. No fim das aulas, os bois estavam à minha espera onde os tinha deixado, de barriga cheia, pois o capim era farto. Ao entardecer, havia que os pôr no cercado feito de paus cruzados e arbustos. Como nos eumbo tradicionais. A diferença é que o nosso curral ficava afastado da casa, evitando as moscas, enquanto os eumbo são constituídos de várias cubatas, onde moram as pessoas, em volta do cercado dos bois. Os bois no Sul são valiosos, ficam no centro.
   Os bois são o centro das habitações e das vidas.
   Mas antes de guardar o gado, tinha tempo de brincar. A Olga era uma menina muito agarrada à casa e os meus irmãos eram pequenos. Preferia ir brincar com os miúdos das redondezas, que moravam nas cubatas dispersas ao lado de hortas. Eles não iam à escola mas sabiam muitas coisas para me ensinar. Eu também a eles. Caçávamos pássaros com chifutas de borracha, mergulhávamos na lagoa azul perto da estrada, contávamos estórias, ríamos, formávamos um bando unido. No tempo certo, apanhávamos mirangolos às carradas. Eram frutos vermelhos no começo, roxos quase pretos quando maduros, nascidos em arbustos do tamanho de uma pessoa. Comíamos até termos dor de barriga, o resto levávamos para as casas, onde as mães faziam compotas espantosas porque os mirangolos são simultaneamente doces e ácidos. É a melhor compota do mundo, venham os sabichões contar o contrário. Os pais dos meus amigos trabalhavam na cidade, geralmente como criados nas casas dos brancos, ou nas chitacas maiores, também dos brancos. As mães ficavam nas cubatas a tomar conta das crianças e a tratar da chitaca, normalmente muito pequena pela falta de braços, produzindo apenas milho, legumes e fruta para a família. As mulheres pisavam ainda o milho nas covas dos rochedos ou nos pilões e faziam a comida, peixe seco com funje de milho. Só em dias de festa grande comiam carne. De boi muito raramente, de cabrito mais frequentemente. Vinha gente de todos os lados para comer a carne de boi nas festas grandes, casamento ou óbito.
   Dois do meu bando eram filhos do Kanina, João e Job, mas ele tinha outros, ou muito grandes ou pequenos de mais. Nunca reparei na cor da pele deles, quente como a minha.
   O valor da pele é o seu calor.
   No entanto a Olga, sempre atenta aos meus passos, um dia me chamou a atenção para as diferenças:
   – Devias brincar com os teus colegas de escola e não com esses.
   – Porquê?
   – Porque eles são pretos e nós brancos.
   – E então?
   – Os pais não acham bem.
   Os meus pais nunca tinham dito nada, nem mesmo com os olhos. Mandaram a Olga dizer? Ou foi só uma boca dela? A Olga tinha a mania de irmã mais velha, sabem como é.
   Metia-se na vida dos mais novos.
   Continuei porém a brincar com os meus amigos. À volta de casa não tinha outros. Mas não gostava deles por isso. Gostava por serem meus amigos verdadeiros, me lembro deles quando era muito pequeno e crescemos juntos. Tinha outros amigos, alguns companheiros de escola. Brancos, quase todos. Um ou outro mestiço. Não me lembro de nenhum negro na escola. Mas devia haver, pois se dizia Salazar construiu uma Angola multirracial. Bem, nessa altura nem percebia ideias nem palavras tão complicadas. O certo é ter os amigos das redondezas, com eles jogava futebol e caçava sardões ou pássaros e apanhava fruta. Só hoje sou capaz de reparar terem cores diferentes dos outros da escola. Na época éramos todos iguais, julgava eu.
   Não éramos afinal, havia racismo.
   Olga era racista, desde pequena dizia, não gosto nada de negros. Devia ter ouvido os colonos vezes sem conta com afirmações desse género e aprendeu a frase. Acho, começou a repetir como um papagaio antes de a perceber. Eu só mais tarde percebi. Não gostei. Mal sabia eu! O racismo havia de me perseguir a vida inteira, como vos explicarei.
   Se tiver tempo.
   O tempo é um atleta batoteiro, toma drogas proibidas, corre mais que todos. E quanto mais o quisermos agarrar, porque resta pouco, mais ele corre. Por isso são sábios os velhos dos kimbos, nunca querem agarrar o tempo, deixam-no passar por eles, as peles devem ser rugosas e o tempo entranha-se nelas, deslizando com mais dificuldade. Entranha-se mesmo nas peles das mulheres velhas tratadas diariamente com leite coalhado e óleos tirados de sementes especiais para ficarem macias. Se elas usam a sabedoria dos anciãos, as peles lisas pelo leite e óleo têm no entanto entalhes, escarificações, travando a corrida do tempo. Nós achamos ser superiores, modernos, vivemos em cidades, porém não sabemos nada disto. O tempo goza com a nossa estúpida vaidade, passa por nós como um foguete, nos torna seus escravos. Os velhos dos kimbos não correm atrás, antes ficam parados contemplando as diferentes manchas de uma vaca, distinguindo uma de outra, assim conhecendo toda a manada, a sua e as dos vizinhos....



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